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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A PEQUENA ALMA E O SOL


Era uma vez, em tempo nenhum, uma

Pequena Alma que disse a Deus:

— Eu sei quem sou!

E Deus disse:

— Que bom! Quem és tu?

E a Pequena Alma gritou:

— Eu sou Luz

E Deus sorriu.

— É isso mesmo! — exclamou Deus. — Tu

és Luz!

A Pequena Alma ficou muito contente,

porque tinha descoberto aquilo que todas as almas do Reino deveriam descobrir.

— Uauu, isto é mesmo bom! — disse a

Pequena Alma.

Mas, passado pouco tempo, saber quem

era já não lhe chegava. A pequena Alma

sentia-se agitada por dentro, e agora queria

ser quem era. Então foi ter com Deus (o que

não é má ideia para qualquer alma que queira

ser Quem Realmente É) e disse:

— Olá Deus! Agora que sei Quem Sou,

posso sê-lo? E Deus disse:

— Quer dizer que queres ser Quem já És?

— Bem, uma coisa é saber Quem Sou, e

outra coisa é sê-lo mesmo. Quero sentir como

é ser a Luz! — respondeu a pequena Alma.

— Mas tu já és Luz — repetiu Deus,

sorrindo outra vez.

— Sim, mas quero senti-lo! — gritou a

Pequena Alma.

— Bem, acho que já era de esperar. Tu

sempre foste aventureira — disse Deus com

uma risada. Depois a sua expressão mudou.

— Há só uma coisa...

O quê? — perguntou a Pequena Alma.

— Bem, não há nada para além da Luz.

Porque eu não criei nada para além daquilo

que tu és; por isso, não vai ser fácil

experimentares-te como Quem És, porque não

há nada que tu não sejas.

— Hã? — disse a Pequena Alma, que já

estava um pouco confusa.

— Pensa assim: tu és como uma vela ao

Sol. Estás lá sem dúvida. Tu e mais milhões,

ziliões de outras velas que constituem o Sol. E

o Sol não seria o Sol sem vocês. “Não seria um

sol sem uma das suas velas... e isso não seria

de todo o Sol, pois não brilharia tanto. E no

entanto, como podes conhecer-te como a Luz

quando estás no meio da Luz — eis a

questão”.

— Bem, tu és Deus. Pensa em alguma

coisa! — disse a Pequena Alma mais

animada.

Deus sorriu novamente.

— Já pensei. Já que não podes ver-te como

a Luz quando estás na Luz, vamos rodear-te

de escuridão — disse Deus.

— O que é a escuridão? perguntou a

Pequena Alma.

— É aquilo que tu não és — replicou Deus.

— Eu vou ter medo do escuro? —

choramingou a Pequena Alma.

— Só se o escolheres. Na verdade não há

nada de que devas ter medo, a não ser que

assim o decidas. Porque estamos a inventar

tudo. Estamos a fingir.

— Ah! — disse a Pequena Alma, sentindo-

se logo melhor. Depois Deus explicou que, para se

experimentar o que quer que seja, tem de

aparecer exactamente o oposto.

— É uma grande dádiva, porque sem ela

não poderíamos saber como nada é — disse

Deus — Não poderíamos conhecer o Quente

sem o Frio, o Alto sem o Baixo, o Rápido sem

o Lento. Não poderíamos conhecer a

Esquerda sem a Direita, o Aqui sem o Ali, o

Agora sem o Depois. E por isso, — continuou

Deus — quando estiveres rodeada de

escuridão, não levantes o punho nem a voz

para amaldiçoar a escuridão.

“Sê antes uma Luz na escuridão, e não

fiques furiosa com ela. Então saberás Quem

Realmente És, e os outros também o saberão.

Deixa que a tua Luz brilhe tanto que todos

saibam como és especial!”

— Então posso deixar que os outros vejam

que sou especial? — perguntou a Pequena

Alma.

— Claro! — Deus riu-se. — Claro que

podes! Mas lembra-te de que “especial” não

quer dizer “melhor”! Todos são especiais, cada

qual à sua maneira! Só que muitos

esqueceram-se disso. Esses apenas vão ver

que podem ser especiais quando tu vires que

podes ser especial!

— Uau — disse a Pequena Alma,

dançando e saltando e rindo e pulando. —

Posso ser tão especial quanto quiser!

— Sim, e podes começar agora mesmo —

disse Deus, também dançando e saltando e

rindo e pulando juntamente com a Pequena

Alma — Que parte de especial é que queres

ser?

— Que parte de especial? — repetiu a

Pequena Alma. — Não estou a perceber.

— Bem, — explicou Deus — ser a Luz é

ser especial, e ser especial tem muitas partes.

É especial ser bondoso. É especial ser

delicado. É especial ser criativo. É especial ser

paciente. Conheces alguma outra maneira de

ser especial?

A Pequena Alma ficou em silêncio por um

momento.

— Conheço imensas maneiras de ser

especial! — exclamou a Pequena Alma — É

especial ser prestável. É especial ser

generoso. É especial ser simpático. É especial

ser atencioso com os outros.

— Sim! — concordou Deus — E tu podes

ser todas essas coisas, ou qualquer parte de

especial que queiras ser, em qualquer

momento. É isso que significa ser a Luz.

— Eu sei o que quero ser, eu sei o que

quero ser! — proclamou a Pequena Alma com

grande entusiasmo. — Quero ser a parte de

especial chamada “perdão”. Não é ser especial

alguém que perdoa?

— Ah, sim, isso é muito especial,

assegurou Deus à Pequena Alma.

— Está bem. É isso que eu quero ser.

Quero ser alguém que perdoa. Quero

experimentar-me assim — disse a Pequena

Alma.

— Bom, mas há uma coisa que devias

saber — disse Deus.

A Pequena Alma já começava a ficar um

bocadinho impaciente. Parecia haver sempre

alguma complicação.

— O que é? — suspirou a Pequena Alma.

— Não há ninguém a quem perdoar.

— Ninguém? A Pequena Alma nem queria

acreditar no que tinha ouvido.

— Ninguém! — repetiu Deus. Tudo o que

Eu fiz é perfeito. Não há uma única alma em

toda a Criação menos perfeita do que tu. Olha

à tua volta. Foi então que a Pequena Alma reparou na

multidão que se tinha aproximado. Outras

almas tinham vindo de todos os lados — de

todo o Reino — porque tinham ouvido dizer

que a Pequena Alma estava a ter uma

conversa extraordinária com Deus, e todas

queriam ouvir o que eles estavam a dizer.

Olhando para todas as outras almas ali

reunidas, a Pequena Alma teve de concordar.

Nenhuma parecia menos maravilhosa, ou

menos perfeita do que ela. Eram de tal forma

maravilhosas, e a sua Luz brilhava tanto,

que a Pequena Alma mal podia olhar para

elas.

— Então, perdoar quem? — perguntou

Deus.

— Bem, isto não vai ter piada nenhuma!

— resmungou a Pequena Alma — Eu queria

experimentar-me como Aquela que Perdoa.

Queria saber como é ser essa parte de

especial.

E a Pequena Alma aprendeu o que é

sentir-se triste.

Mas, nesse instante, uma Alma Amiga

destacou-se da multidão e disse:

— Não te preocupes, Pequena Alma, eu

vou ajudar-te — disse a Alma Amiga.

— Vais? — a Pequena Alma animou-se. —

Mas o que é que tu podes fazer?

— Ora, posso dar-te alguém a quem

perdoares!

— Podes?

— Claro! — disse a Alma Amiga

alegremente. — Posso entrar na tua próxima

vida física e fazer qualquer coisa para tu

perdoares.

— Mas porquê? Porque é que farias isso?

— perguntou a Pequena Alma. — Tu, que és

um ser tão absolutamente perfeito! Tu, que

vibras a uma velocidade tão rápida a ponto de

criar uma Luz de tal forma brilhante que mal

posso olhar para ti! O que é que te levaria a

abrandar a tua vibração para uma velocidade

tal que tornasse a tua Luz brilhante numa luz

escura e baça? O que é que te levaria a ti, que

danças sobre as estrelas e te moves pelo Reino

à velocidade do pensamento, a entrar na

minha vida e a tornares-te tão pesada a ponto

de fazeres algo de mal?

— É simples — disse a Alma Amiga. —

Faço-o porque te amo.

A Pequena Alma pareceu surpreendida

com a resposta. — Não fiques tão espantada — disse a

Alma Amiga — tu fizeste o mesmo por mim.

Não te lembras? Ah, nós já dançámos juntas,

tu e eu, muitas vezes. Dançámos ao longo das

eternidades e através de todas as épocas.

Brincámos juntas através de todo o tempo e

em muitos sítios. Só que tu não te lembras. Já

fomos ambas o Todo. Fomos o Alto e o Baixo,

a Esquerda e a Direita. Fomos o Aqui e o Ali,

o Agora e o Depois. Fomos o Masculino e o

Feminino, o Bom e o Mau — fomos ambas a

vítima e o vilão. Encontrámo-nos muitas

vezes, tu e eu; cada uma trazendo à outra a

oportunidade exacta e perfeita para Expressar

e Experimentar Quem Realmente Somos.

— E assim, — a Alma Amiga explicou

mais um bocadinho — eu vou entrar na tua

próxima vida física e ser a “má” desta vez.

Vou fazer alguma coisa terrível, e então tu

podes experimentar-te como Aquela Que

Perdoa.

— Mas o que é que vais fazer que seja

assim tão terrível? — perguntou a Pequena

Alma, um pouco nervosa.

— Oh, havemos de pensar nalguma coisa

— respondeu a Alma Amiga, piscando o olho.

Então a Alma Amiga pareceu ficar séria,

disse numa voz mais calma:

— Mas tens razão acerca de uma coisa,

sabes?

— Sobre o quê? — perguntou a Pequena

Alma.

— Eu vou ter de abrandar a minha

vibração e tornar-me muito pesada para fazer

esta coisa não muito boa. Vou ter de fingir ser

uma coisa muito diferente de mim. E por isso,

só te peço um favor em troca.

— Oh, qualquer coisa, o que tu quiseres!

— exclamou a Pequena Alma, e começou a

dançar e a cantar: — Eu vou poder perdoar,

eu vou poder perdoar!

Então a Pequena Alma viu que a Alma

Amiga estava muito quieta.

— O que é? — perguntou a Pequena Alma.

— O que é que eu posso fazer por ti? És um

anjo por estares disposta a fazer isto por mim!

— Claro que esta Alma Amiga é um anjo!

— interrompeu Deus, — são todas! Lembra-te

sempre: Não te enviei senão anjos.

E então a Pequena Alma quis mais do que

nunca satisfazer o pedido da Alma Amiga.

— O que é que posso fazer por ti? —

perguntou novamente a Pequena Alma. — No momento em que eu te atacar e

atingir, — respondeu a Alma Amiga — no

momento em que eu te fizer a pior coisa que

possas imaginar, nesse preciso momento...

— Sim? — interrompeu a Pequena Alma

— Sim?

A Alma Amiga ficou ainda mais quieta.

— Lembra-te de Quem Realmente Sou.

— Oh, não me hei-de esquecer! — gritou a

Pequena Alma — Prometo! Lembrar-me-ei

sempre de ti tal como te vejo aqui e agora.

— Que bom, — disse a Alma Amiga —

porque, sabes, eu vou estar a fingir tanto, que

eu própria me vou esquecer. E se tu não te

lembrares de mim tal como eu sou realmente,

eu posso também não me lembrar durante

muito tempo. E se eu me esquecer de Quem

Sou, tu podes esquecer-te de Quem És, e

ficaremos as duas perdidas. Então, vamos

precisar que venha outra alma para nos

lembrar às duas Quem Somos.

— Não vamos, não! — prometeu outra vez

a Pequena Alma. — Eu vou lembrar-me de ti!

E vou agradecer-te por esta dádiva — a

oportunidade que me dás de me experimentar

como Quem Eu Sou. E assim o acordo foi feito. E a Pequena

Alma avançou para uma nova vida,

entusiasmada por ser a Luz, que era muito

especial, e entusiasmada por ser aquela parte

especial a que se chama Perdão.

E a Pequena Alma esperou ansiosamente

pela oportunidade de se experimentar como

Perdão, e por agradecer a qualquer outra

alma que o tornasse possível.

E, em todos os momentos dessa nova vida,

sempre que uma nova alma aparecia em cena,

quer essa nova alma trouxesse alegria ou

tristeza — principalmente se trouxesse tristeza

— a Pequena Alma pensava no que Deus lhe

tinha dito.

Lembra-te sempre,

— Deus aqui tinha sorrido —

não te enviei senão anjos...


Feliz natal para todos os Anjos que habitam este planeta...

( Neale Donald Walsch)

2 comentários:

Amaral disse...

Um livro que eu já tive o prazer de oferecer à minha netinha!
É bom recordá-lo aqui, Cláudia.
Era uma vez...
Olha, se eu fosse catequista, era capaz de tentar ensinar as coisas de uma maneira que...
Não sei se os pequenos me entenderiam, não sei...
Depois, darás a tua opinião...

Neto. disse...

Que lindo! Não conhecia esta fábula. Será bom quando todos lembrármos quem somos, perdoar e brilhar!